Professor do Curso de Publicidade e Propaganda e do Curso de Design da Faculdade Maurício de Nassau- Unidade Maceió apresenta o resultado de um trabalho de resgate e capacitação de rendeiras do Estado de Alagoas que fez o SEBRAE-AL de modo que fosse desenvolvido uma linha de produtos de cama, mesa e banho com identidade local acentuada. A FLORENSE vai expor esse resultado como um ensaio fotográfico intitulado ” Onde há rede, há renda”. Abaixo o texto de apresentação do Prof. Francisco Oiticica
Onde há rede, há renda: ensaio fotográfico
O conjunto de fotografias que ora apresento resulta do interesse pela atividade da pesca, exemplo do poder de iniciativa do homem alagoano em atendimento às necessidades reais de subsistência e às expectativas simbólicas e imaginárias da comunidade à qual pertence, trabalho este que ele o faz com dignidade e com a preservação de seu ecossistema, sem o que não teria, até hoje, resistido.
O aspecto mais importante que destaco neste universo, entretanto, é a relativa autonomia que o trabalho da pesca artesanal proporciona aos seus praticantes. Chamo a isto de trabalhar para si, isto é, sob um regime estabelecido pelo corpo social, cujo critério principal é a manutenção do grupo tal qual ele é, ou seja, coeso, transmitindo os seus conhecimentos profissionais de uma para outra geração: o cortar e costurar a vela; o tramar a rede, o localizar os “cabeços”…
Universo masculino, cotidiano rude, algumas vezes marcado pelo alcoolismo, a pesca comporta uma dimensão doméstica que lhe complementa e suaviza: o trabalho de confecção de rendas feminino. Tradição de remota origem, desde a sua introdução por colonos açorianos, no litoral brasileiro – do Pará ao Rio Grande do Sul –, em Alagoas, a renda se converteu em manifestação ímpar da “singeleza” costeira. O provérbio português “Onde há rede, há renda”, abriu para mim um campo de significações insuspeitadas: onde há rede (de pesca – mas também rede de relacionamentos), há renda (de fio de algodão nativo, de bilros, de almofada – mas também renda de sustento, de remuneração pelo trabalho). Tal campo foi desdobrado num vídeo que fiz sobre o cotidiano da pesca; numa instalação fotográfica com os retratos dos pescadores e freqüentadores da balança de peixe da Garça Torta, bairro de Maceió; e no ensaio fotográfico aqui apresentado.
Baseei-me, para a realização desta exposição, na pesquisa pioneira do alagoano Francisco de Paula Leite e Oiticica, “A arte da renda no Nordeste”, publicado no “Livro do Nordeste”, em 1925, sob encomenda de Gilberto Freyre. Acompanha o levantamento da tipologia do artesanato em área nordestina que o senador realizou, ilustrações de Manuel Bandeira, o pintor, reproduzindo minuciosamente, os “pontos” que formam os desenhos das rendas mencionadas. Incorporei-as às minhas fotos acreditando dar-lhes o relevo merecido.
A fotografia tem uma posição filosófica que nos conduz ao agir pelo bem comum: ela nos religa ao mundo, nos aproxima do outro, coloca-nos em prontidão, contextualiza-nos num âmbito restrito, é certo, mas não amesquinhado, pois, com a fotografia, o conteúdo fático da vida ganha uma relevância toda especial.
Por maiores que sejam as trucagens que comporte a imagem fotográfica (e eu as usei em generosas doses), ainda assim, é da ordem da sociabilidade a mensagem que veicula com o objetivo de despertar a atenção do destinatário e prolongar a comunicação.
O fotógrafo ganha, com isso, o reconhecimento da comunidade – alguém que se faz necessário pelo trabalho que executa com as mesmas motivações dos demais trabalhos do lugar: um junto ao outro para melhorar o convívio de todos.
Quando recém chegado para morar em Maceió, dediquei-me ao levantamento fotográfico das pichações nos muros da cidade: foi outra experiência fundamental de aproximação e envolvimento com as realidades afetiva, estética e figurativa do espaço. Novamente agora a fotografia me revela um caminho. A exposição reabre este caminho que eu gostaria de continuar a percorrer na companhia de vocês.
Prof. Dr. Francisco Oiticica Filho